JULIA BRANDÃO

O Sujeito e o Objeto

06 de Junho - 20 de Junho

Em meio a gravatas, sapatos, chapéus e outros itens expostos em vitrines de uma galeria no centro de São Paulo, encontra-se um objeto com formato e composição distintos dos outros a seu redor. Composto por recortes de couro unidos por pequenas argolas e sobrepostos a um veludo, juntos eles formam um novo objeto, uma obra-estandarte. Apesar de sua abstração, chama a atenção que as partes que o constituem: o couro, o veludo, e os brincos de argola, aludem ao universo do corpo e mais do que isso, do corpo feminino. Além disso, os recortes irregulares guardam a memória dos gestos de sua criação e o objeto como um todo traz reflexões sobre as relações entre materialidade e indivíduo, como também esclarecido pelo vídeo apresentado a seu lado.

 

No vídeo, a artista aparece vestindo um casaco de couro e com uma tesoura em punho. Logo os cortes se iniciam. Cada gesto leva à fragmentação da forma original transformando o casaco em retalhos e colocando também o torso da artista à vista. Esses cortes, porém, não são feitos com facilidade.  O material é resistente, e os movimentos exigem esforço, como se pode notar nas expressões do rosto da artista. A dificuldade do corte também pode ser percebida em paralelo com o ato de colocar o corpo à mostra, de forma vulnerável, ainda mais no espaço público.

 

O principal campo de investigação do trabalho de Júlia Brandão é o corpo e suas relações com noções de identidade e memórias culturais referentes aos espaços que ele habita. Lidando predominantemente com tecidos, a artista explora materialidades e técnicas que cruzam os universos das artes plásticas, da costura e tapeçaria. Partindo de retalhos, a artista produz colagens, esculturas, performances e também instalações nas quais se pode adentrar. A artista reúne em suas obras elementos de domínio pessoal e de cultura popular que buscam estabelecer conexões emocionais e ativar memórias coletivas. Mais recentemente, a artista começou a experimentar com vídeos e performances em que sua imagem se faz presente, refletindo de forma mais direta sobre a relação entre sua principalmente matéria-prima, o tecido, e o corpo. Uma perspectiva relevante do trabalho da artista é seu olhar sobre identidades e classificações sociais de forma a desestabilizar aquilo que é já é aceito. Fazem parte desta pesquisa obras como Corpo fragmentado (2018), em que peças recortadas de roupas diferentes da própria artista são costurados e reconstruídos, buscando uma nova unidade no espaço do canvas, e Deslocamento (2018), uma performance em que a artista recorta grandes áreas que abrem buracos e criam conexões entre tecidos sobrepostos, formando também uma nova composição tridimensional. Ainda relacionado a estas ideias está O Terno Masculino (2019), performance na qual a artista tenta, de forma insistente e sem sucesso, vestir um terno masculino, que é posteriormente decomposto e recriado em nova composição artística.

 

Em O Sujeito e o Objeto, a artista continua a lidar com processos de fragmentação e reconstrução, mas nesta obra, a fragmentação tem potencial transformador. Além disso, a presença do vídeo chama a atenção para a relevância e a simbologia do processo e sobre como material e corpo se entrelaçam e se transformam conjuntamente. Seu corpo se torna também o meio pelo qual a artista busca questionar como o corpo feminino é percebido, não em sentido individual, mas sim em sentido mais amplo, tornando o seu, um corpo social. Este processo questiona noções e valores que marcam a representação do feminino, que cerceiam desejos, dominam pelo medo, e oprimem pelo sentimento de culpa. A obra traz a ideia de um corpo que não se quer assediado, sensualizado, reprimido ou silenciado por outros. O Sujeito e o Objeto é uma obra sobre fragmentação, transformação, e finalmente sobre liberdade. É uma obra que busca libertar-se da identidade e valores aos quais o corpo feminino é atrelado e que ao mesmo tempo busca a liberdade para a construção de subjetividades. Nele, a obra de arte é tratada como um estandarte que guarda a memória da travessia do corpo feminino na busca de criação de um corpo novo, de um corpo livre.

 

O vídeo foi produzido em colaboração com Robert O'Shea, que filmou a ação. O artista trabalha com vídeo, performance, fotografia e escultura. Ele busca explorar questões como identidade queer, a política da imagem, o trabalho e o corpo. Formado em Belas Artes pelo National College of Art and Design, na Irlanda, Robert vive e trabalha entre Nova Iorque e a Irlanda.

 

Iara Pimenta